Eu sou Monica Levit Zilberman. Quando olho para trás e tento organizar minha trajetória, percebo que ela nunca foi linear. Não comecei minha carreira dizendo “vou estudar jogo patológico” ou “vou trabalhar com transtornos do impulso”. O que me movia era algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundo: compreender por que algumas pessoas entram em ciclos que as machucam — e permanecem neles mesmo quando sabem que estão perdendo.
Minha formação em Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, concluída em 1991, foi o primeiro passo. Depois veio a residência em Psiquiatria no Hospital das Clínicas da FMUSP. Ali eu tive contato com sofrimento real, não em teoria, mas no cotidiano. Pessoas em crise, famílias desestruturadas, histórias interrompidas por comportamentos que começaram pequenos e terminaram devastadores.
Foi nesse ambiente que entendi algo que nunca mais me abandonou: a psiquiatria exige método, mas também exige humanidade. Não basta classificar sintomas. É preciso entender o que sustenta o comportamento, o que o alimenta, o que ele substitui na vida daquela pessoa.
| Marco | Instituição | Período |
|---|---|---|
| Graduação em Medicina | FMUSP | 1991 |
| Residência em Psiquiatria | Hospital das Clínicas da FMUSP | Década de 1990 |
| Atuação clínica e pesquisa | IPq-HC-FMUSP | Carreira |
O fio condutor invisível
Se alguém olha apenas os títulos das minhas pesquisas, pode pensar que são áreas desconectadas: alcoolismo feminino, amor patológico, ciúme excessivo, jogo patológico. Mas, para mim, sempre foi o mesmo território.
Eu sempre estive interessada no momento em que:
- Um comportamento começa como tentativa de aliviar dor emocional
- Ele passa a se repetir com frequência crescente
- Surge a sensação de perda de controle
- O prejuízo se torna concreto
A dependência química me ensinou muito sobre esse mecanismo. Mas depois percebi que ele também estava presente em fenômenos comportamentais — inclusive no jogo.
O que o jogo me ensinou sobre sofrimento silencioso
O jogo patológico entrou no meu percurso como extensão natural do meu interesse por impulsividade e repetição. No início, muitos ainda viam o jogo como uma questão moral ou como simples falta de controle. Mas na clínica eu via outra coisa.
Eu via pessoas que:
- Tentavam recuperar perdas com apostas maiores
- Mentiam para familiares
- Acumulavam dívidas rapidamente
- Desenvolviam ansiedade e depressão
- Chegavam ao consultório já em estado de desespero
Com o avanço das apostas online, o cenário mudou ainda mais. Antes, o jogo exigia deslocamento físico. Hoje, ele está no celular. Isso altera completamente o padrão de risco.
O reforço intermitente, a promessa constante de recuperação financeira e a publicidade massiva criam um ambiente altamente estimulante. E quando o ambiente muda, o perfil clínico também muda.
Tenho observado:
- Início mais precoce
- Progressão mais rápida
- Maior associação com ansiedade
- Endividamento mais agressivo
- Ideação suicida em casos graves
O jogo nunca vem sozinho
Uma das coisas que mais insisto na prática clínica é que o jogo raramente é o único problema.
Frequentemente ele está associado a:
- Depressão
- Transtornos de ansiedade
- Impulsividade elevada
- Uso concomitante de álcool
- Eventos de vida marcantes como luto ou aposentadoria
Tratar apenas o ato de apostar não resolve o quadro. É preciso tratar o que sustenta esse comportamento.
Pesquisa aplicada ao cuidado
Sempre acreditei que pesquisa precisa dialogar com o ambulatório. Um exemplo foi a participação em estudo que avaliou programa estruturado de atividade física para jogadores patológicos em tratamento.
| Ano | Título | Área |
|---|---|---|
| 2013 | Evaluation of a physical activity program for pathological gamblers | Jogo patológico |
| 2011 | Validation of scales for pathological love | Impulsividade |
Essas pesquisas reforçam algo essencial: o tratamento precisa ser multifatorial. Psicoterapia, organização financeira, suporte familiar, manejo medicamentoso quando indicado, intervenções comportamentais.
O jogo como questão de saúde pública
Hoje, com a expansão das apostas digitais no Brasil, eu não consigo enxergar o jogo apenas como problema individual. Quando a exposição é massiva, o risco também se torna coletivo.
Se a oferta aumenta, precisamos ampliar:
- Prevenção
- Educação
- Rastreamento precoce
- Capacitação profissional
- Rede especializada de atendimento
Caso contrário, veremos crescimento de sofrimento silencioso que só aparece quando já está em estágio avançado.
O que me move hoje
Eu continuo trabalhando onde a repetição se transforma em prisão. Seja no álcool, no amor patológico ou no jogo, meu compromisso é o mesmo: identificar padrões, nomear sofrimento e estruturar tratamento baseado em evidência.
Eu não trabalho com julgamento moral. Trabalho com cuidado.
E no campo do jogo patológico, especialmente no contexto digital atual, acredito que estamos diante de uma das transformações mais impactantes da saúde mental contemporânea.
A transformação neurobiológica do jogo: o que acontece no cérebro
Quando comecei a atender jogadores patológicos com mais frequência, uma das perguntas que mais escutava era: “Mas doutora, por que eu não consigo simplesmente parar?”. Essa pergunta não é trivial. Ela não nasce da falta de força de vontade, mas da alteração progressiva de circuitos cerebrais ligados à recompensa, antecipação e controle inibitório.
O jogo ativa o sistema dopaminérgico de recompensa, especialmente o circuito mesolímbico. O problema não está apenas no ganho financeiro. Está na antecipação do ganho. Estudos internacionais mostram que o pico de ativação pode ocorrer antes mesmo do resultado, no momento da expectativa. Esse padrão cria um ciclo extremamente poderoso de reforço intermitente — e o reforço intermitente é um dos mecanismos comportamentais mais resistentes à extinção.
Com a exposição repetida:
- A sensibilidade à recompensa natural diminui.
- A necessidade de estímulos mais intensos aumenta.
- O controle inibitório do córtex pré-frontal pode ficar prejudicado.
- A tomada de decisão se torna mais impulsiva.
O jogador passa a buscar não apenas dinheiro, mas regulação emocional. O jogo vira anestesia para ansiedade, depressão, frustração ou vazio.
Com as plataformas digitais, esse processo ganha intensidade. O design das apostas online explora elementos de neurociência comportamental: cores vibrantes, feedback imediato, quase-vitórias, bônus variáveis. A experiência é construída para manter o engajamento contínuo. Isso altera profundamente a curva de progressão do transtorno.
Dados epidemiológicos e contexto brasileiro
O Brasil vive um momento singular. A expansão das apostas online ampliou drasticamente a exposição populacional ao jogo. Embora a prevalência exata ainda esteja sendo mapeada com maior precisão, dados internacionais indicam que:
- Entre 0,5% e 2% da população adulta pode desenvolver transtorno do jogo.
- Uma porcentagem maior apresenta comportamento de risco.
- Jovens adultos e homens apresentam maior prevalência.
- O risco aumenta em contextos de vulnerabilidade socioeconômica.
No Brasil, a combinação de:
- Alta penetração de smartphones
- Publicidade agressiva
- Influenciadores digitais promovendo apostas
- Contexto econômico instável
cria um cenário particularmente sensível.
O que mais me preocupa não é apenas a prevalência, mas a velocidade de deterioração. Tenho observado que muitos pacientes evoluem de apostas recreativas para endividamento grave em menos de dois anos.
Compreendendo a progressão clínica do jogo patológico
A progressão geralmente não é abrupta. Ela ocorre em fases. Primeiro, a fase de entusiasmo. Depois, a fase de perda e tentativa de recuperação. Por fim, a fase de desespero.
| Fase | Características emocionais | Comportamento financeiro | Riscos associados |
|---|---|---|---|
| Fase inicial (entusiasmo) | Excitação, otimismo, sensação de controle | Apostas pequenas e esporádicas | Subestimação do risco |
| Fase intermediária (perda) | Ansiedade, irritabilidade, preocupação constante | Aumento do valor apostado para recuperar perdas | Endividamento inicial |
| Fase avançada (desespero) | Culpa intensa, depressão, desesperança | Dívidas significativas, empréstimos, ocultação | Ideação suicida, ruptura familiar |
Essa progressão pode ser acelerada no ambiente digital. A possibilidade de apostar a qualquer momento impede períodos naturais de interrupção, que antes existiam no jogo presencial.
Modelos terapêuticos que utilizo
O tratamento eficaz exige abordagem estruturada. Não existe solução única.
Costumo trabalhar integrando:
- Psicoterapia cognitivo-comportamental focada em impulsividade e distorções cognitivas
- Reestruturação de crenças relacionadas ao “controle” e à “recuperação de perdas”
- Avaliação de comorbidades psiquiátricas
- Planejamento financeiro supervisionado
- Envolvimento familiar
Em alguns casos, intervenções farmacológicas são indicadas, especialmente quando há depressão ou impulsividade marcante.
A atividade física estruturada também demonstrou impacto positivo, reduzindo fissura e melhorando regulação emocional. Isso foi observado em estudos nos quais participei, reforçando a importância de intervenções complementares.
Perfil clínico e fatores de risco
Ao longo dos anos, identifiquei padrões recorrentes. O jogo patológico tende a aparecer com maior frequência em indivíduos com:
- Alta impulsividade
- Histórico de dependência química
- Vulnerabilidade emocional
- Transições de vida marcantes (divórcio, aposentadoria, luto)
- Busca intensa por validação externa
Mas é fundamental lembrar que o transtorno pode atingir qualquer perfil socioeconômico.
| Dimensão | Fatores de risco | Fatores de proteção |
|---|---|---|
| Psicológica | Impulsividade, baixa tolerância à frustração, depressão | Boa regulação emocional, autoconhecimento |
| Social | Isolamento, pressão financeira, ambiente permissivo | Rede de apoio, estabilidade familiar |
| Digital | Acesso irrestrito, publicidade massiva, bônus constantes | Limites de tempo e valor, controle parental, educação digital |
| Financeira | Endividamento prévio, instabilidade econômica | Planejamento financeiro estruturado |
Políticas públicas e responsabilidade social
O crescimento das apostas no Brasil exige reflexão séria. Não se trata de proibir indiscriminadamente, mas de estruturar responsabilidade.
É fundamental:
- Implementar rastreamento precoce em serviços de saúde
- Desenvolver campanhas educativas realistas
- Capacitar profissionais da atenção primária
- Criar ambulatórios especializados
- Regulamentar publicidade direcionada a jovens
Se a oferta cresce, o sistema de saúde precisa crescer junto.
Minha posição profissional
Eu não demonizo o jogo como entretenimento. Mas reconheço que, quando ele se transforma em compulsão, estamos diante de sofrimento real.
Trabalho com base em três pilares:
- Evidência científica
- Responsabilidade clínica
- Dignidade do paciente
O jogo patológico é um dos fenômenos mais complexos da psiquiatria contemporânea, especialmente em um mundo digital. E acredito que estamos apenas começando a compreender seu impacto profundo na saúde mental da população brasileira.


